Elite da Tropa

Muita gente que não leu o livro acredita que o filme Tropa de Elite é uma versão do livro Elite da Tropa. Não é. O livro traz muitas histórias enquanto o filme retrata uma só (não contida no livro). Segundo o diretor do filme, José Padilha, em entrevista à Folha Ilustrada, a idéia surgiu após o documentário ônibus 174, quando Padilha quis fazer outro documentário, desta vez sobre o BOPE. Como os policiais não colocariam a cara no cinema, acabou saindo um filme de ficção. Portanto leia o livro e veja o filme.A corrupção na PMERJ é escancarada no filme, que mostra bem como o “sistema vive para alimentar o sistema”. O filme é narrado em primeira pessoa, pela principal personagem, um capitão do BOPE que quer sair da Unidade porque está endoidando e porque nasce seu filho. Como na realidade de milhares de PMs, o casamento do capitão acaba por causa do estresse do trabalho.Como a proposta do filme é trazer a visão dos policiais (os do BOPE), coisa inédita nacionalmente já que PM não tem voz nesse país, não poderia faltar uma boa dose de crítica social, fuzilando os jovens de classe média consumidores de droga, atribuindo-lhes a culpa (ou parte dela) pelo tráfico de drogas e pela violência no Rio de Janeiro. Em parte isso é verdade. Mas só em parte, uma vez que se sabe que não é só nos morros que estão os traficantes, mas infelizmente é só essa parte dos traficantes que a PM combate, enquanto muitos dos chefões transitam engravatados por aí em seus carros importados blindados. O filme também procura passar um conceito de honestidade sob a ótica do BOPE, ou seja, quem rouba não presta, mas matar… matar não tem problema, desde que seja matar traficante. Na ética do filme, ser traficante é mau e ser assassino é bom. Desde que o morto seja bandido, mesmo o bandido travestido de PM. Não existe traficante recuperável e não vale a pena perder tempo prendendo ninguém. Todos devem ser mortos. Em combate, pelas costas, depois de dominados, não interessa. Aliás, o filme traz apenas duas categorias de policiais: os corruptos e os do BOPE.Uma das cenas mais marcantes de Tropa de Elite é a da morte e sepultamento de um dos aspiras candidatos a substitutos do capitão Nascimento, representado pelo Wagner Moura. Ele ia ao morro levar um par de óculos que o outro aspira havia mandado fazer para um garoto míope da favela (o lado humano do PM também é bem retratado) e cai na emboscada armada para o colega. Assistir ao enterro, pra quem é PM, é pesado pacas, pois retrata bem o sentimento da perda de colegas em combate. Mesmo fora do Rio, não tem PM que nunca tenha ido no sepultamento de um colega tombado em combate. Esse negócio do arquétipo do herói que tanto repete o Balestreri é foda mesmo: ver um herói sendo enterrado é bem mais difícil que ver um amigo não policial.

2 comentários:

Unknown disse...

Tropa de Elite é um ótimo filme, onde mostra a realidade de DENTRO da BOPE !! Mostra realmente como ocorre os fatos. Facinante !!!!

Renan Elias

Revista Contraste disse...

Concordo que o filme é uam reflexão sobre a realidade das favelas e o mundo paralelo que a envolve, como as leis de convivio entre comunidade, traficantes e "policiais". Além de trazer a tona a realidade obscura da corrupção dentro do sistema que deveria nos defender e o oposto tão berrante, os policiais que vieram para "defender a honra" ( como eles mesmo dizem)... Até esse filme trazer tantas discussões e polêmicas o resto do Brasil fora do eixo Rio/São Paulo conhecia muito pouco sobre essa realidade... O filme pautou a discussão sobre até onde um policial pode ir e com o que ele tem que conviver para "sobreviver"...

Muito bom..

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